Bienal do Livro coloca tecnologia no centro da ficção científica brasileira

Por Patrick Calderton 9 Min de leitura

Autores brasileiros discutem como inteligência artificial, inovação e imaginários tecnológicos podem ajudar a literatura a interpretar o presente e construir outros futuros.

A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo abriu espaço para uma discussão que aproxima literatura, tecnologia e os desafios contemporâneos do Brasil. A Arena Cultural recebeu na terça-feira (8) o encontro “Ficção científica é coisa nossa”, com os escritores Alê Santos, Felipe Castilho e Jana Bianchi, colocando a produção brasileira do gênero em evidência durante um dos maiores eventos literários da América Latina. (Folha de S.Paulo)

O debate ganhou repercussão nesta quarta-feira (9) justamente por apresentar uma visão da ficção científica que vai além de robôs, viagens espaciais ou tecnologias futuristas. Os participantes discutiram o caráter político do gênero e como a tecnologia pode ser utilizada para construir imaginários próprios, conectados à história, à cultura e aos conflitos brasileiros. Alê Santos, por exemplo, trabalha com conceitos como “cibercapoeiristas” e “tecnogriôs”, aproximando referências afro-brasileiras de futuros tecnológicos. (Folha de S.Paulo)

A discussão acontece em um momento em que inteligência artificial, algoritmos, automação e novas plataformas digitais estão transformando rapidamente diferentes áreas da sociedade. Nesse cenário, a ficção científica também funciona como um laboratório de ideias: autores podem imaginar como essas tecnologias interferem no trabalho, nas relações humanas, na desigualdade e na própria identidade cultural.

A Bienal continua até 13 de setembro, no Distrito Anhembi, em São Paulo. A edição de 2026 reúne 269 expositores, 11 espaços culturais e tem expectativa de receber mais de 700 mil visitantes. A programação oficial também inclui inteligência artificial e inovação entre os assuntos abordados em atividades ligadas à educação. (Bienal do Livro SP)

Ficção científica brasileira cria seus próprios futuros

Durante o encontro, uma das discussões centrais foi a possibilidade de produzir ficção científica a partir de referências brasileiras. Isso significa abandonar a ideia de que histórias sobre tecnologia e futuro precisam necessariamente reproduzir cidades, conflitos e sociedades imaginadas a partir de modelos estrangeiros.

Alê Santos, Felipe Castilho e Jana Bianchi representam diferentes caminhos dentro dessa produção. A presença dos três no palco principal da Bienal demonstra também como fantasia e ficção científica nacionais conquistaram maior espaço dentro do mercado editorial. A própria programação oficial colocou “Ficção científica é coisa nossa” entre os encontros da Arena Cultural. (CNN Brasil)

A tecnologia aparece como uma ferramenta importante nessa construção. Uma sociedade futura imaginada a partir do Brasil pode incorporar inteligência artificial, cidades inteligentes, biotecnologia, redes digitais e automação, mas também pode carregar elementos da cultura popular, ancestralidade, desigualdade, diversidade regional e diferentes maneiras de compreender a relação entre pessoas e tecnologia.

Esse encontro entre tradição e inovação aparece de maneira particularmente clara nas ideias apresentadas por Alê Santos. Ao propor expressões que combinam elementos tecnológicos com referências como capoeira e tradição oral africana, o escritor desloca o centro da imaginação futurista. O futuro deixa de ser exclusivamente importado e passa a incorporar experiências culturais brasileiras. (Folha de S.Paulo)

A discussão ajuda a compreender por que a ficção científica pode ser relevante mesmo para leitores pouco interessados em previsões sobre o futuro. O gênero frequentemente utiliza tecnologias inexistentes ou ainda experimentais para discutir problemas que já fazem parte do presente.

Tecnologia permite discutir problemas que já existem no presente

A relação entre tecnologia e ficção científica se tornou ainda mais relevante com a popularização da inteligência artificial generativa. Sistemas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e códigos deixaram de existir apenas em histórias futuristas e passaram a fazer parte da rotina de empresas, escolas, universidades e consumidores.

Esse movimento aproxima ficção e realidade. Questões que anteriormente apareciam principalmente em romances e filmes — máquinas capazes de produzir conteúdo, sistemas automatizados tomando decisões e algoritmos conhecendo hábitos individuais — passaram a integrar debates concretos sobre trabalho, educação, privacidade e criatividade.

É justamente nesse ponto que a ficção científica pode desempenhar um papel cultural importante. Em vez de tentar prever exatamente quais aparelhos existirão daqui a algumas décadas, escritores podem explorar as consequências humanas dessas transformações. Uma tecnologia fictícia pode funcionar como ponto de partida para discutir concentração de poder, desigualdade, racismo, vigilância ou acesso ao conhecimento.

Na discussão realizada na Bienal, os autores ressaltaram também a dimensão política do gênero. A Folha de S.Paulo, ao acompanhar o encontro, destacou que a conversa abordou tanto o caráter político da ficção científica quanto o papel da tecnologia na construção dos imaginários apresentados pelas obras. (Folha de S.Paulo)

Isso não significa que toda obra precise defender uma posição política específica. Significa que imaginar uma sociedade futura envolve decisões sobre quem controla recursos, quem tem acesso às tecnologias, como as cidades são organizadas e quais grupos participam desse futuro.

No contexto brasileiro, essas perguntas ganham características próprias. Um país marcado por grande diversidade cultural e profundas desigualdades sociais pode produzir histórias tecnológicas muito diferentes das criadas em sociedades com outras experiências históricas.

Bienal amplia espaço para tecnologia, inovação e novas formas de leitura

A discussão sobre ficção científica integra uma Bienal que procura ampliar sua identidade para além de uma feira tradicional de venda de livros. A organização apresenta a edição de 2026 como um festival de cultura, experiências e conexões, aproximando literatura de entretenimento, educação e economia criativa. (Bienal do Livro SP)

A tecnologia também aparece diretamente na programação educacional. Segundo a organização, o Espaço Educação desta edição aborda assuntos como inteligência artificial, alfabetização, inclusão, neurodiversidade, saúde mental e inovação pedagógica, mostrando que a transformação digital atravessa diferentes partes da programação. (Bienal do Livro SP)

A dimensão do evento ajuda a ampliar o alcance dessas discussões. A Bienal acontece entre 4 e 13 de setembro, no Distrito Anhembi, e reúne centenas de expositores e autores brasileiros e internacionais. Entre os escritores nacionais anunciados oficialmente estão justamente Alê Santos, Felipe Castilho e Jana Bianchi. (Bienal do Livro SP)

A programação continua nos próximos dias com encontros dedicados a diferentes gêneros e transformações culturais. O evento mantém atividades durante a semana e no fim de semana, encerrando no domingo, 13 de setembro. (Bienal do Livro SP)

Para o setor editorial, a aproximação entre tecnologia e literatura ocorre também fora das histórias. Audiolivros, livros digitais, plataformas de leitura, redes sociais e sistemas de recomendação modificaram a maneira como leitores descobrem autores. Ao mesmo tempo, adaptações para cinema, streaming, games e histórias em quadrinhos permitem que universos literários circulem entre diferentes mídias.

Nesse ambiente, dar destaque à ficção científica brasileira significa também discutir quem participa da construção dos futuros imaginados pela cultura. O encontro realizado na Bienal mostrou que tecnologia e ancestralidade não precisam ocupar lados opostos dessa discussão: elas podem aparecer juntas na construção de universos que reflitam melhor a experiência brasileira.

A Bienal do Livro de São Paulo segue até domingo e ainda oferece uma extensa programação cultural. Para quem acompanha tecnologia, o evento mostra que as grandes transformações digitais não pertencem somente às empresas de software ou aos laboratórios de pesquisa. Elas também estão chegando à literatura — espaço no qual os impactos de uma inovação podem ser imaginados muito antes de suas consequências se tornarem completamente visíveis na sociedade.

Fontes

Bienal Internacional do Livro de São Paulo — site oficial
Bienal do Livro — programação oficial de 2026
Folha de S.Paulo — ficção científica brasileira ganha destaque na Bienal
CNN Brasil — programação da Bienal do Livro 2026